
Sabe aquele sonho que te faz acordar assustado, com uma dor no peito, uma angustia... enfim. Essa noite eu acordei assim. Com uma sensação de perda iminente. Um choro contido na garganta que só foi sufocado após plena consciência de que tudo passou de apenas, um sonho.
Será?
Pois bem. Vocês, leitores imaginários, devem estar se perguntando ‘que diabos esse menino sonhou para acordar desse jeito?’. Fantasmas? Assassinos? Monstros? Nada disso. Pior que isso. Sonhei com momentos antes da minha morte. Vou explicar.
Em meu sonho descobri que eu ia morrer de alguma doença que não me revelaram. Os médicos me deram apenas um dia de vida, mas sabendo disso, me mantive tranqüilo. Uma sensação de paz e dever cumprido reinava em meu coração embora a angústia de saber que ia deixar pessoas queridas apertava o meu peito.
Vários cenários se passaram em alguns instantes pelos meus olhos e eu me via deitado em minha cama em Itabuna com folhas em meu colo, caneta na minha mão e como apoio um caderno que eu gostava muito quando tinha 15 anos. Era um caderno de capa dura meio marrom com uma foto de um mico leão dourado. Não sei por que, mas eu adorava esse caderno.
Com os papeis apoiados nesse caderno, eu escrevia cartas de despedidas para minha família. A cada palavra, a cada frase que eu registrava naquelas folhas, lágrimas rolavam em meu rosto e lembranças afloravam em minha mente. Principalmente lembranças da minha infância com meus avós e meu irmão.
Era fácil escrever aquilo tudo. Palavras doces, recheadas de amor e compaixão baseadas em momentos felizes que vivi com todos eles. As brincadeiras, as picuinhas, as brigas e os risos com meu irmão foi o que mais mexeu comigo. Confesso que escrevendo esse texto agora me vêm lágrimas nos olhos. Parece que essa despedida foi real.
Pensar que um dia eu não terei mais a companhia deles, dos meus amigos e familiares não será tão fácil como eu imaginava. Sou espírita e as questões sobre a morte sempre foram levadas com muita simplicidade e aceitação. Mas não é. Não importa para onde você irá, como você irá ou quando você irá. O que importa é o que você vai deixar na lembrança das pessoas que conviveram com você. Lembranças boas? Tristes? Engraçadas? Não sei.
Espero que eu tenha deixado boas lembranças na vida de todos. Afinal, as coisas ruins eu absorvo como aprendizado. Às vezes um sonho é só um sonho. Mas, às vezes, sonhos são avisos. Mensagens que o (in) consciente traz à tona no momento de descanso do corpo físico. Sonhar para o espírito é mais. É se desprender momentaneamente da matéria e alcançar lugares inimagináveis.
No fim, acordei. Mas espero sinceramente que eu demore muito para escrever aquelas cartas!